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Bonecas sem nome

No último sábado colocamos todo mundo na sala.

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Bonecas sem nome


No último sábado colocamos todo mundo na sala. Nem todos couberam no sofá, então muitos tiveram de se acomodar no chão. E depois que todos estavam perfilados, começamos a selecionar quem ia ficar e quem iria embora.
 
Acho que a metade deve ter ido embora, o que não foi uma decisão fácil. Nunca é.
 
Mas teve o valor de ensinar às minhas filhas a importância de cuidarmos das nossas coisas, de limparmos a casa, de vivermos sem os excessos, e de compartilharmos o que não estamos usando. Foi por isso que sugeri que elas pegassem todas as bonecas que tinham e levassem até a sala. Havia bonecas espalhadas por todos os cantos da casa, e quando chegamos nesse estado, há mais bagunça do que brincadeira propriamente dita.
 
Então era chegada a hora de fazermos uma limpa. Elas se envolveram bem na tarefa, e gostaram bastante de ver toda aquela bonecaiada sentada na sala, como uma galeria de troféus de suas infâncias.
 
Muitas bonecas ali não geravam empatia – estavam escondidas em algum canto de prateleira e provavelmente nunca foram usadas em qualquer brincadeira, o que é uma pena, mas também é a vida. Essas a gente ia separando num canto para doação.
 
O cerco foi apertando. Peguei algumas velhas conhecidas de brincadeiras, coloquei no montinho para doação – elas não reclamaram. Pelo contrário, acho que nós adultos é que somos mais apegados.
 
Por exemplo, quando peguei uma pequenininha toda rabiscada e perguntei às meninas se havia alguma objeção, elas não falaram nada. Mas então surgiu minha esposa incisiva: “A Nicole não! Essa a Helena ganhou no aniversário de um ano”. Havia um apego sentimental com a Nicole porque ela esteve lá desde o início. A Nicole ficou.
 
Como toda limpa que a gente faz na casa, mal chegamos à metade e todos já haviam se dispersado: as meninas brincando com alguma boneca, a mãe no celular e eu impotente e cansado para terminar a arrumação. Mas, enfim, conseguimos terminar a seleção das bonecas, e, como eu disse, acho que mais da metade foi embora em sacos para doação.
 
Ficou apenas o núcleo duro: algumas velhas de guerra como a Bolita, outras mais recentes, mas intensamente amadas, como a Sofia, e todas com quem havia um apego não apenas emocional, mas também brincadeiral, ou seja, ficou só quem realmente participava das brincadeiras.
 
Após olhar para o remanescente, me veio uma constatação: as bonecas que ficaram foram as que tinham nome. Pois várias delas não tinham nome algum, eram genéricas “nenéns” ou indistintas “filhinhas” que habitavam as prateleiras. As que tinham nome tinham também identidade própria, tinham uma definição de sua individualidade, e, por isso, era mais difícil doá-las.
 
Uma coisa era doar uma das tantas baby alive que estavam ali. Outra, bem diferente, era se desfazer da Letícia. Num caso, era a doação de uma boneca; no outro, era algo assemelhado ao abandono de incapaz, ao assassinato.   
 
Aliás, alguém já falou que o fato de dar nome ao bebê na barriga é uma das linhas decisivas para que o aborto seja percebido como um assassinato. Afinal, não se está removendo um feto, e sim matando uma vida única, uma pessoa com um nome.
 
E é no mínimo curioso notar que amigos e familiares se encontrem em chás de revelação, que palpitem sobre a escolha do nome, que perguntem como a Letícia está na barriga da mãe, se ela chuta muito, se ela vai parecer com a mãe ou com o pai, mas, em outros casos, a Letícia seja vista apenas como um pedaço de carne removido do corpo da mãe, como um apêndice, apenas porque não recebeu um nome.
 
Enquanto eu pensava nessas coisas, minhas meninas já estavam eram brincando novamente, cada uma com sua boneca no colo – bonecas com nome que permaneceram conosco.

 

Bonecas sem nome

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares
 

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Sarah Carvalho

Sarah Carvalho

Uau. Ótimo texto e excelente reflexão.
★★★★★DIA 03.03.20 19h29RESPONDER
Nubia Paula
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