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A cadeirinha do carro

Outro dia, voltando para casa à noite, sozinho, ouço aquele barulho de máquina de lavar roupa.

A cadeirinha do carro
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Outro dia, voltando para casa à noite, sozinho, ouço aquele barulho de máquina de lavar roupa.

Abaixo o volume do rádio, abro a janela e confirmo que o ruído vem do pneu; bendita hora para furar um pneu! Enquanto procurava um lugar seguro no acostamento para parar, assaltou-me a dúvida sobre a providência a tomar: chamar o seguro ou trocar o pneu? De um lado, a comodidade e a segurança; de outro, um teste de independência.

Ainda sem decidir, desci do carro e olhei o pneu – para minha surpresa, bem cheio. Sem saber ao certo o que havia acontecido, decidi que dava para ir para casa devagarinho e levar o carro ao borracheiro no dia seguinte.

Foi o que ocorreu, e lá o borracheiro me informou que era um prego, por isso o barulho; mas que ele tinha entrado de uma forma que não tinha deixado o ar escapar, por isso não ter esvaziado. Menos mal.

 Mas se fosse outro o caso, bastaria ter trocado o pneu naquela noite. O rapaz do seguro sabe trocar pneu. Eu sei trocar pneu. Confesso que não com a desenvoltura esperada, mas sei; já troquei algumas vezes. Todos os carros estão equipados com os acessórios necessários: macaco, chave de roda e, claro, o estepe. Além do que há aquela solidariedade automotora em se tratando de alguém trocando um pneu no meio da rua, e não é incomum que um bom samaritano encoste para ajudar. 

O problema mesmo foi outro dia, em que tive que prender uma cadeirinha de criança cuja fivela havia se soltado. Encostei no acostamento, tirei a filha, e tive de tirar a cadeira para fora, a fim de ter mais espaço para trabalhar.

Virei-a do avesso para ver se lembrava do mecanismo. Parecia com a cadeirinha da outra filha, mas algumas peças eram diferentes. O espaço era curto e apertado, e eu enfiava a minha mão com a máxima destreza para ver se conseguia encaixar a alça do cinto numa fivela lá de trás, mas era impossível. Devia ter como retirar alguma parte da estrutura para facilitar o serviço. Mas se tinha eu não sabia. E justo essa cadeira foi o rapaz da loja que levou até o carro na maior gentileza e instalou...

A cadeirinha do carro

Os carros passavam pela rua zunindo, e enquanto isso a esposa e as filhas me olhavam com aquela exigência no olhar. Juro que se fosse um pneu furado eu já teria trocado. Mas arrumar essa cadeirinha, que é diferente da outra, e das outras do outro carro...

 Ah, por que esse serviço não consta no catálogo das seguradoras? Porque embutem reparos domésticos nas apólices e não incluem cadeirinhas de bebês? Por que, minha gente? Por que motoqueiros do seguro para trocar pneus, se pneu é a coisa mais fácil do mundo, e é tudo igual?

E por que ainda não se criou essa solidariedade entre os pais que passam na rua e veem seus semelhantes na árdua tarefa de arrumar o cinto de uma cadeirinha de bebê? Porque muito mais urgente e difícil do que um pneu é uma cadeirinha de bebê que não está presa no cinto do carro, ou cuja alça se soltou, ou cuja fivela se perdeu.

Por isso, pais, lembrai-vos do dia em que tirastes a cadeirinha da caixa e fostes felizes instalar no carro como se fosse um bebê-conforto; lembrai-vos de que não sabíeis se o cinto do carro passava por baixo ou por cima da cadeira; lembrai-vos de quando lestes o manual de instrução e continuastes sem saber; lembrai-vos de quando fostes ajudados por outro pai mais experimentado, amigo a quem pedistes socorro. Lembrai-vos disso e ajudai uns aos outros.

Enquanto me perdia nessas imprecações mentais, as crianças já choravam impacientes e a esposa resolveu trocar de turno: fica com as meninas e deixa eu tentar um pouco. Não sei se foi a mão mais fina e ágil, não sei se houve um processo de aprendizado a partir dos meus movimentos anteriores, não sei se foi sorte, mas o fato é que ela conseguiu.

Colocamos novamente as meninas e seguimos nosso rumo. E agora eu desejava com todas as forças que o pneu furasse para que eu tivesse a chance de me redimir.

 

A cadeirinha do carro

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

 

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